Aprendizado do amor
10 de Dezembro de 2021 às 09:23
Aprendizado do amor
Uma bonita história de amizade é contada através do texto selecionado por Nolfeu Barbosa em sua coluna desta sexta-feira.

Passava do meio-dia, o cheiro de pão quente invadia aquela rua, um sol escaldante convidava a todos para um refresco... Ricardinho não aguentou o cheiro bom do pão e falou:

- Pai, tô com fome!

O pai, seu Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho, e pede mais um pouco de paciência...

- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome!

Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, seu Agenor pede para o filho aguardar na calçada, enquanto entra na padaria à sua frente. Ao entrar, dirige-se a um senhor no balcão:

- Meu Senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos aí na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei. Eu lhe peço que, em nome de Jesus, me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino. Em troca, posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar.

Seu Amaro, o dono da Padaria, estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...

Seu Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o ao Seu Amaro que, imediatamente, pede que os dois sentem junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso P.F. (prato feito): arroz, feijão, bife e ovo.

Para Ricardinho, era um sonho comer após tantas horas na rua; para o seu Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e dos outros dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá. Já na primeira garfada, grossas lágrimas desciam dos seus olhos. A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples, como se fosse um manjar dos deuses, e a lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades. Seu Amaro se aproxima do Seu Agenor e, percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:

- Oh, Maria, sua comida deve tá muito ruim... olha o meu amigo, tá até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?

Imediatamente, Seu Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer. Seu Amaro pede, então, que ele sossegue seu coração, que almoce em paz e depois conversariam sobre trabalho. Mais confiante, Seu Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome estava nas costas. Após o almoço, Seu Amaro convida o Seu Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório. Seu Agenor conta, então, que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e, desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos "biscates" aqui e acolá, mas que há 2 meses não recebia nada.

Seu Amaro resolve, então, contratar o Seu Agenor para serviços gerais na padaria e, penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias. Seu Agenor, com lágrimas nos olhos, agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho.

Ao chegar em casa com toda aquela "fartura", Seu Agenor é um novo homem: sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso. Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores.

No dia seguinte, às 5 horas da manhã, Seu Agenor estava na porta da padaria, ansioso para iniciar seu novo trabalho. Seu Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem, que nem ele sabia por que estava ajudando. Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias bem diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa. E ele não se enganou: durante um ano, Seu Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres.

Um dia, Seu Amaro chama o Seu Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos, um quarteirão acima da padaria e que ele fazia questão que Seu Agenor fosse estudar.
Seu Agenor até hoje não consegue esquecer o primeiro dia de aula, a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta...

Doze anos se passaram desde aquele primeiro dia de aula. Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, hoje advogado, abrindo seu escritório para seu cliente e depois outro, e depois mais outro... Ao meio dia, ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o "antigo funcionário", tão elegante em seu primeiro terno...

Mais dez anos se passam e, agora, o Dr. Agenor Baptista já conta com uma clientela que mistura os mais necessitados - que não podem pagar - e os mais abastados, que o pagam muito bem.

Seu Agenor resolve criar uma Instituição que ofereça aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida, diariamente, na hora do almoço. Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar, administrado por aquele seu filhote, que agora é o nutricionista Ricardo Baptista.

Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor, impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um. Contam até que, aos 82 anos, os dois faleceram no mesmo dia, quase que à mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.

Conta-se no céu, que o próprio Mestre Jesus veio recebê-los com um sorriso e um coro de mil anjos cantando uma música que falava da vitória dos que sabem persistir.

Ricardinho, o filho, mandou gravar na frente da "Casa do Caminho", que seu pai fundou com tanto carinho:

"Um dia eu tive fome e você me alimentou.

Um dia eu estava sem esperanças, e você me deu um caminho.

Um dia acordei sozinho e você me deu Deus, e isso não tem preço.

Que Deus habite em seu coração e alimente a sua alma.

E que te sobre o pão da misericórdia, para estender a quem precisar!"


Texto de autoria de Paulo Roberto Gaefke selecionado por Nolfeu Barbosa