Coluna: COLUNA DO BARBOSA

Bruxas não existem (Moacyr Scliar)
21 de Janeiro de 2022 às 08:54
Nolfeu Barbosa nos brinda em sua coluna desta sexta-feira com dois belos textos, sendo um de autoria de Moacyr Scliar.
Nolfeu Barbosa nos brinda em sua coluna desta sexta-feira com dois belos textos, sendo um de autoria de Moacyr Scliar.

Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa". Ela era muito feia; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão. Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando "bruxa, bruxa!".

Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob o comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante e, com muito esforço, nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina.

- Vamos logo - gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça.

E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último. E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher, sem dúvida, descarregaria em mim sua fúria. Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente.

- Está quebrada – disse, por fim. - Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim.

Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e, com eles e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher, sorrindo, à minha mãe.

Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.

OS CONSULTORES (Autor desconhecido)

Uma grande indústria brasileira de calçados desenvolveu um projeto de exportação de sapatos para a Índia. Seguindo-se a execução do projeto, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do país, para fazerem as primeiras observações do potencial daquele futuro mercado. Depois de alguns dias de pesquisa, o primeiro dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da indústria:

- Cancelem o projeto de exportação de sapatos para a Índia. Aqui ninguém usa sapatos!

Sem saber do fax do primeiro consultor, alguns dias depois o segundo consultor mandou o seu fax:

- Tripliquem o projeto de exportação de sapatos para a Índia. Aqui ninguém usa sapatos, AINDA. Depois de uma boa campanha iremos vender milhares de pares de sapatos.

MORAL DA HISTÓRIA:

A mesma situação era um tremendo obstáculo para um dos consultores e uma fantástica oportunidade para outro. Da mesma forma, tudo na vida pode ser visto com enfoques e maneiras diferentes.

A sabedoria popular traduz essa situação na seguinte frase: "OS TRISTES ACHAM QUE O VENTO GEME; OS ALEGRES, ACHAM QUE ELE CANTA."

O mundo é como um espelho, que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos, atitudes e ações. A maneira como você encara a vida é que faz TODA a diferença. Pense nisso!...


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