Coluna: COLUNA DO BARBOSA

O melhor pedaço
12 de Março de 2021 às 06:45
Ao contar a história de um velho mendigo e seu cão, Nolfeu Barbosa, em sua coluna desta sexta-feira, nos propõe uma reflexão sobre o quanto nos dedicamos aos nossos amigos.
Ao contar a história de um velho mendigo e seu cão, Nolfeu Barbosa, em sua coluna desta sexta-feira, nos propõe uma reflexão sobre o quanto nos dedicamos aos nossos amigos.

Serapião era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o seu fiel escudeiro, um vira-lata branco e preto, que atendia pelo nome de Malhado. Serapião não pedia dinheiro. Aceitava sempre um pão, uma banana, um pedaço de bolo ou outro alimento qualquer. Quando suas roupas estavam imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma caridosa. Mudava a apresentação e era alvo de brincadeiras. O mendigo era conhecido como um homem bom que perdera a razão, a família, os amigos e até a identidade. Não tomava bebida alcoólica e estava sempre tranquilo, mesmo quando não recebia nada de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e, sempre na hora em que mais precisava, alguém lhe estendia uma porção de alimento. Serapião agradecia com reverência e rogava a Deus pela pessoa que o ajudava. Tudo que ganhava, dava primeiro para o Malhado, que, paciente, comia e ficava esperando por mais um pouco. Não tinham onde passar as noites; onde anoiteciam, dormiam. Quando chovia, procuravam abrigo embaixo da ponte do ribeirão. Ali o mendigo ficava a meditar, com um olhar perdido no horizonte. Aquela figura era intrigante, pois levava uma vida vegetativa, sem progresso, sem esperança e sem um futuro promissor. 

Certo dia, um homem, com a desculpa de lhe oferecer umas bananas, foi bater um papo com o velho mendigo. Iniciou a conversa falando do Malhado, perguntou pela idade dele, mas Serapião não sabia. Dizia não ter ideia, pois se encontraram num certo dia, quando ambos perambulavam pelas ruas da cidade. 

- Nossa amizade começou com um pedaço de pão, disse o mendigo. Ele parecia estar faminto e eu lhe ofereci um pouco do meu almoço e ele agradeceu, abanando o rabo, e daí em diante não me largou mais. Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que posso. 

- Como vocês se ajudam? – perguntou o homem.

- Ele me vigia quando estou dormindo; ninguém pode chegar perto que ele late e ataca. Quando ele dorme eu também fico vigiando, para que outros cachorros não o incomodem.

Continuando a conversa, o homem fez uma nova pergunta:

- Serapião, você tem algum desejo na vida?

- Sim - respondeu ele - tenho vontade de comer um cachorro quente, daqueles que têm na lanchonete da esquina.

- Só isso? - indagou o homem.

- É, no momento é só isso que eu desejo.

- Pois bem - disse-lhe o homem - vou satisfazer agora esse grande desejo.

Saiu e comprou um cachorro quente e o entregou ao velho, que arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e em seguida tirou a salsicha, deu para o Malhado, e comeu o pão com os temperos. O homem não entendeu aquele gesto, pois imaginava que a salsicha era o melhor pedaço.

- Por que você deu a salsicha para o Malhado? - perguntou o homem, intrigado.

Serapião, com a boca cheia, respondeu:

- Para o melhor amigo o melhor pedaço.

E continuou comendo, alegre e satisfeito. O homem se despediu de Serapião, passou a mão na cabeça do cão e saiu, pensando com seus botões: "Aprendi alguma coisa hoje; como é bom ter amigos. Pessoas em que possamos confiar. Por outro lado, é bom ser amigo de alguém e ter a satisfação de ser reconhecido como tal. Jamais esquecerei a sabedoria daquele mendigo."

REFLEXÃO:

E você? Que parte tem reservado para os seus amigos? É claro que não estamos aqui falando de algo físico ou material, mas sim de apoio em horas difíceis, de palavras de consolo em horas de infortúnio, de solidariedade ou, até mesmo, de uma simples lembrança para perguntar como ele(ela) está. Afinal de contas, bons amigos não servem apenas para fazer festas, não é verdade?

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